26 de Abril

O dia 26 de Abril de 1974 calhou a uma sexta-feira e ordeiramente, após repetidos comunicados radiofónicos, intercalados pelo único disco de marchas militares existente nos arquivos do Rádio Clube Português, fomos convidados a resumir as nossas vidas a seguir a um dia que só seria da Liberdade uns meses mais tarde.

Como sugerido voltámos às aulas (na altura no 4º Ano do Liceu Nacional de Oeiras). Discutimos excitados o que tinha acontecido no dia anterior, uns mais apreensivos do que outros, no meu caso a descrever que o meu pai tinha ido a Lisboa dar uma vista de olhos ao que se estava a passar, deixando a minha mãe em casa a remoer orações e apreensões. Só muito mais tarde, agora mesmo, me surpreendo como é que o meu pai conseguiu ir a Lisboa de comboio, como é que comboios continuavam a circular, meticulosamente, com revisores e maquinistas e bilheteiras, enquanto dramas de metralhadoras e Chaimites se desenrolavam por todo o país e floristas ofereciam cravos vermelhos. Pela minha parte o 25 de Abril foi passado a jogar matraquilhos na taberna local, com a algazarra de golos misturada às omnipresentes marchas militares da rádio.

Nesse dia os professores estavam igualmente apreensivos e lembro-me do José Júlio (JotaJota), Professor de Matemática já idoso, que tinha sido Professor da minha mãe no Liceu de Leiria, de temperamento ríspido, EstadoNovense e reaccionário a entrar na sala de aula, pegar no livro de ponto e batê-lo desalmadamente com ambas as mãos de encontro à mesa, aos gritos, dizendo que tinha sempre sido um Revolucionário??? e comunista e o resto. Nós, num silêncio ignorante e aquiescente, moita carrasco! Para nós, o único que poderia reclamar qualquer etiqueta de revolucionário, seria o Professor de Canto Coral, Francisco Fernandes, cego, o qual tinha passado o ano a ensinar-nos canções do José Afonso, incluindo "Canta Camarada Canta" e "Grândola Vila Morena", vendidas a nós como canções de "contrabandistas". Até hoje não sei como é que o Reitor nunca disse palavra, talvez mais iluminado e humanista do que a sua figura austera e representante do Estado Novo deixava transparecer.

E depois tivemos aula de Português. O nosso Professor era o Manuel Tomás, penso que formadinho de fresco, a ganhar experiência connosco, barbudo de moda universitária, com um sorriso matreiro o qual ainda possui desde a última vez que o vi na ilha do Pico, onde passámos uma tarde a relembrar o passado e a comer infinitos maracujás. Entra na aula e escrupulosamente, para nossa surpresa, diz "Sumário!". Abrimos os cadernos em obediência, um pouco desapontados por não haver comentário ao dia anterior como antecipávamos, mas de repente, o Rui Rodrigues sai-se com esta... "Stôr, ontem não houve aula, o que é que escrevemos como sumário para ontem?" O Manuel Tomás pressente o desafio e diz... "Tens razão Rui! Ontem foi um dia importante e que deve ficar marcado no vosso caderno." "Então o que escrevemos?" insiste o Rui... silêncio... "Escrevam... Dia em que foi possível a Liberdade de Expressão!" O silêncio da escrita múltipla de 40 BICs espalha-se pela sala. Quando acabo, pergunto a mim mesmo e ganho coragem para perguntar ao Manuel Tomás "Stôr, então e hoje?... não há liberdade de expressão?". E o Manuel responde a coçar a barba do queixo, com ar de profeta pensativo "Não Zé Paulo! Foi só ontem. Hoje acabou!"

Podem ver na fotografia acima... não há foices nem martelos, punhos esquerdos erguidos e o povo unido jamais será vencido, ou a CEE ou outras benesses mediáticas, ou bandeiras ou outros adereços políticos. Só um povo, a que alguns chamarão de populaça, na expectativa, o qual tendo sido roubado durante séculos teve nesse dia um vislumbre da possibilidade. E no dia seguinte... deixou-se roubar outra vez.

É por isso que o 26 de Abril de 1974 é muito mais importante do que o 25 de Abril de 1974.

Comentários

  1. Bravo!
    Acho que podiamos ter sido da mesma turma!
    Só que o meu professor português era o Barata, mas o de música era o mesmo, sim!
    Foi com ele que ouvimos pela primeira vez o Tubular Bells do Mike Old Field.

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  2. Hey Zé Paulo, que memória fantástica. Agora quando leio o que escreveste passo a ter vaga ideia. Nunca mais me tinha lembrado do Prof. de Português, ptto, foste-me acordar uns neurónios que estavam esquecidos algures no sotão craniano!
    Foi um período agitado da nossa vida em que eu sinto que houve uma mistura da necessidade de afirmação de adolescente e do descobrimento total das novas ondas trazidas pelo 25 Abril, no meio da ingenuidade e sonho. Podes continuar a relatar que assim se tivermos todos Alzheimer pelo menos falamos todos de um passado comum :-)

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  3. Os 3 anos e meio que passamos no Liceu de Oeiras a seguir ao 25 de Abril marcaram-nos para sempre. Quanto à minha memória presumo haver alguma liberdade literária e ainda bem.

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  4. Sessão da Noite obrigado pela lembrança mas não poderiamos ser da mesma turma. Recordo-me do nome Barata mas não consigo visualizá-lo. E sim lembro-me do Francisco Fernandes e do Tubular Bells sim senhor!

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