Exorcismos

Hoje estou triste, ainda mais, porque cada dia que passa sinto que devo um epitáfio que não quero escrever e que de certeza não vai ser ainda desta.

De manhã mais angústia, sem saber, incauto, vi um texto escrito pela minha amiga Isabel e tal não podia ser mais descritivo da dor que alguém pode estar a passar. “Tive Um Amigo e Morreu”... dizia/escrevia... e liguei-lhe e fui recebido com sons de lágrimas e mais dor, de um sentido de perda irreparável e insubstituível. “Mas o que é isto?”, dizia a Isabel, “Mas está tudo morrer à nossa volta, o Pedro/Pita, o Carlos Pinto Coelho, agora o José Pedro Barreto...” e passavam-me flashes de apreensão, de poder ser eu o próximo, não pelo medo animal da morte, mas por ir despertar mais lágrimas e tristezas a pessoas que amo, a quem faço falta e me fazem falta, flashes misturados com o pânico de poder ser o último, de ter de passar vivo por mais dor, de sofrer por mais gente que não está, amigos e referências que se apagam num ápice, sem aviso nem despedida e que de repente não sorriem mais, não se ouvem mais, meros rodapés de um edifício que aos poucos se vai transformando em entulho; de ser o último sim, aquele que apaga a luz e fecha a porta do quarto agora vazio.

Amigos que desaparecem, que não voltam mais mesmo, que foram candeeiros na nossa estrada, referências, cimento da nossa personalidade, e que quando se vão não se podem substituir, já é tarde para colocar mais postes, a estrada vai ficando mais escura, os cartazes à volta cada vez mais rasgados e quase invisíveis com décadas de graffiti e erosão, no final só uma visão vácua tipo cenário do Mad Max I, II e III.

E não é só o José Pedro Barreto by proxy e o Pita e o Tommy e a São e o Carlos Pinto Coelho e o Gerry Rafferty e o John Barry ontem (quem mais amanhã?), tudo amigos e gente que tinha como garantidos, imortais, exactamente como eu, pensava para mim mesmo ... e então recorro a truques, a exorcismos, tenho telefones, telemóveis, moradas, perfis de Facebook, Olhares, do Pita, quando sei que ele não vai atender, responder, dizer ou publicar uma palavra sensata e carinhosa, porque não quero apagar a luz e fechar a porta do quarto enquanto oiço o tema do “Midnight Cowboy” em loop permanente.

E isto é egoísta e insensato e de todo nada saudável. A vida continua, dizem por aí, há sempre memórias, temos de recordar e guardar o que de melhor os nossos amigos nos deixaram. Mas eu não acredito, é tudo treta, porque nós já temos e somos o que de melhor os nossos amigos nos deixam, somos um pouco deles e eles um pouco de nós e é por isso que quando um Amigo já não está um bom pedaço de mim também não, perco uma mão e tenho de aprender de novo, fazer o nó dos sapatos com os dentes e depois outro Amigo e mais outra mão que se vai, qual sketch do Black Night no filme The Holy Grail. Não é um simples arranhão, é um golpe profundo no coração acima de qualquer reparação cardio-torácica.

Fiquem as memórias pois então, triste consolo, porque não o são.

Comentários

  1. Querido Paulo,

    São mesmo fraco consolo...

    Mas sabe sempre bem ouvir falar de, saber do enorme carinho à volta...

    Beijos e abraços, Rosario

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