Senhor Sakamoto


Uma rosa de vocabulário encolhido
Rosa, onde o preto devia estar
Uma rosa mais ou menos muda...
... de plástico japonês
de Noel, parece mas não é
Denúncia e do medo de me amar
Língua rosa em boca amarela
desbotada não... fere a vista
(Ivan Lins in “Rose Music” do álbum “Beauty”)




A semana passada fui ver o Ryuichi Sakamoto no Bridgewater Hall em Manchester num concerto que faz parte da tournée “Playing the Piano”. Não podia ter faltado ao encontro e ainda bem.

Ryuichi Sakamoto faz parte da minha cultura urbana musical e apresentou–se já nos anos 80 como um fenómeno de multimédia no filme “Merry Christmas Mr. Lawrence” como actor, contracenando com David Bowie e compositor. A banda sonora deste filme ganhou um BAFTA em 1984.

Preparei-me então para este encontro quase que religioso, ouvindo atentamente o último álbum “Playing the Piano” e também “Out of Noise”, “Neo Geo” e “Beauty”. O título da tournée deu-me a impressão que iria assistir a uma performance de cariz clássico, uma edição contemporânea de “Chopin plays Chopin” ou “Debussy plays Debussy”. Ao ouvir o tema de “Merry Christmas Mr. Lawrence” quase que contactei Ryuichi sugerindo-lhe que esta peça seria ideal tocada a quatro mãos. Como a atmosfera do último álbum de Ryuichi faz-me lembrar fortemente as “Lyric Pieces” de Grieg tocadas pelo Emil Gilels que tenho na minha discoteca, estava à espera de alguma simplicidade, um piano e alguns “temperos” audio–visuais para darem um carácter actual ao acontecimento.

Quando cheguei à sala de concertos um anúncio adiava o início de espectáculo para as 19h55 em vez das 19h00. Um pequeno contratempo que deu para passar e passear no “foyer” e observar que a maior parte dos espectadores eram japoneses, penso que quase toda a comunidade do Noroeste estava presente.

Finalmente entrei na sala e fiquei desapontado. Dois pianos de concerto sem tampa, microfones, colunas, numa sala que tem condições acústicas ímpares, pareceu–me um pouco exagerado, mas talvez seja demasiado purista... e o concerto começou... com o tema gravado “Glacier” do álbum “Out of Noise”... um tema bastante “atmosférico” com laivos de David Sylvian, lado 4 do duplo álbum “Gone to Earth” ou não tivessem eles tocado no mesmo grupo “Japan”... as luzes da sala iam diminuindo de intensidade, lentamente, e veio–me à memória uma entrada equivalente na velha Catedral do Rock em Cascais de Peter Gabriel numa obscuridade total com a percussão de “Intruder”. As luzes do interior dos pianos reduziram–se na totalidade e Ryuichi entrou em palco enquanto um écran projectava legendas em Inuit seguidas de inglês, de frases que estão em “Glacier”, tiradas de entrevistas com gente local na Gronelândia descrevendo a regressão dramática dos glaciares nos últimos anos e alertando–nos para o fenómeno do aquecimento global. Mas eu queria era ver o Ryuichi a tocar piano, como prometido e assim foi... começou o tema seguinte “To Stanford” em piano e “Composition”... e notou–se na audiência e em mim um certo (des)concerto pois, e perdoem–me viver em Inglaterra há tanto tempo, o público aqui gosta mesmo de música ao vivo. Era óbvio que neste último tema havia mais do que aquilo que Ryuichi estava a tocar, parecia um mau “play–back”, tipo Britney Spears na Austrália. Quando este tema terminou o aplauso foi curto e frio e talvez apercebendo-se disto Ryuichi levantou a mão esquerda e deu uma entrada de Maestro... um acorde de piano soou, não tocado por ele mas sim pelo outro piano solitário como podem ver neste tema “Thousand Knives”.

Tudo estava esclarecido e quando terminou este tema o aplauso foi retumbante... e quando atacou de seguida “Amore” para piano solo e mais temas do último álbum a audiência (ou eu) estava subjugada, encantada, rendida(o) a um dos melhores espéctaculos de piano e não só a que assisti na minha vida.

Ryuichi deixou o palco por um breve instante e quando voltou tocou temas de uma beleza inigualável como “Hibari” e “Energy Flow” os quais me deixaram extremamente comovido. Depois de duas horas o segundo encore teve mais um tema sómente e simplesmente “Merry Christmas Mr. Lawrence”... “Fim”.

Que mais dizer... o bom gosto, o equilíbrio ímpar entre dois pianos tocados realmente ao vivo, a simplicidade e estética única da projecção visual no palco fizeram deste espéctaculo um espectáculo. Só Ryuichi poderia trazer todo este som e apresentá–lo desta maneira tão sentida e cosmopolita, honesta e ao mesmo tempo elaborada.

Não sei se “Sakamoto plays Sakamoto” resistirá à erosão do tempo... pelo menos enquanto eu estiver neste planeta como testemunha não me esquecerei que numa noite de chuva, em Manchester, a milhares de quilómetros da sua casa, um pequeno/grande Senhor japonês demonstrou que o ser Humano, e só ele, pode atingir momentos únicos e trazê–los e partilhá–los com outros Humanos brevemente e, ao mesmo tempo... para sempre.

Muito obrigado Senhor Sakamoto, ou domo arigato (foi assim que o Japão começou a agradecer à maneira portuguesa no século XVI).

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