Anglicismos e Outros

Estou farto disto... de olhar para o facebook, escrever blogs, comer hamburgers (não, não como, é só retórica), farto de cultura anglo–saxónica e da constante salivação, ou babugem senil de muitos bons portugueses, por coisas que vêm em inglês (legendas necessárias para alguns, muitas más legendas). Ele há lá coisa melhor do que a excelente bebida (Coca–Cola) e a excelente comida Big Mac mais a extraordinária escrita (Dan Brown), a espectacular actuação (Tom Cruise, Sarah Jessica Parker), o grande cinema (Slumdog Millionaire embora este até seja aceitável) e outros mimos ainda melhores incluindo não exaustivamente, a colónia de férias de Guantanamo (oh Guantanamera que já eras...), Iraque, Afeganistão, bombas de urânio, CIA, MI5 e 6, despesas parlamentares de Right Honourables, sem rectitude nem honra, calão corporativo e financeiro, spreads, meetings, SMSs, ipod, itunes e muitos mais... e nós papamos tudo. Pior, chega–se ao ridículo de ver no facebook comentários entre bons portugueses feitos na língua inglesa provávelmente para “inglês ver” e mostrar cretina universalidade.

Eu que gosto tanto de música fico quase em estado de choque ao ver rap português ??? (pronunciam rép por engano ou descambagem auditiva sem saberem que um rép é um caixeiro–viajante), adulações várias pelo Frank Sinatra e os Smiths sem haver a menor referência emocional e cultural ao que estes artistas se referem, infindáveis artigos acerca de “artistas” de segunda ou inferior categoria como Amy Winehouse ou os Beatles, sem a inteligência para distinguir o que é valioso daquilo que é auto promoção ou publicidade enganosa. No fim são foleiros a falar de coisas foleiras que se passam em duas nações muito foleiras, Inglaterra e Estados Unidos.

Quando comecei a ouvir música com atenção no início dos anos 70 era a rádio que imperava. Às 10 ouvia um programa que invariávelmente tocava o 5.15 dos “The Who” e às vezes o “Tubular Bells” e depois a partir das 11 havia um programa de duas horas onde álbuns inteiros passavam em antena com liberdade total sem intenções de vender “merchandising” associado ou “fashion” ou modos de vida. A minha educação, embora absorvida numa banda sonora em língua inglesa, foi feita dando atenção à qualidade da música, ao som, à arte dos álbuns, voz, guitarra, teclados, sem qualquer interesse em saber se o Rick Wakeman era apanhado com drogas ou se o Jon Anderson tinha comprado duas ou três casas na Suíça. Mais tarde, quando os meus amigos andavam a contar tostões para “paparem” concertos de estádio em Madrid dos Pink Floyd ou Rolling Stones eu andava mais curioso por saber onde o Rão Kyao ou o António Pinho Vargas iriam tocar. Vi–os nos locais mais díspares, desde a praça de touros de Vila Real de Santo António, Técnico ou anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian. Vi também muito rock e jazz Anglo–Saxão em Cascais, Lisboa, Paris, Londres, Zurique e Manchester. Alguns bons mas muita mediocridade. Vi também coisas mais próximas, das terras do Brasil, Cabo Verde, a Amália e a Celeste, Madredeus, Delfins, Xutos, UHF, GNR, o Rui...

O Rão era meu conhecido do Clube Naval de Lisboa. Quando entrei no clube ele era já uma figura mítica e alguns atletas do clube diziam – O Rão deve estar a chegar, vais ver o caparro que ele tem – isto em 1974 e logo a seguir a notícia que ele ia tocar saxofone e não tinha mais tempo para treinar. Mais tarde, talvez uns 15 anos depois, a minha namorada da altura perguntou–me se eu queria ir jantar com ela e o Rão. Disse logo que sim. Quando o fomos apanhar a Cacilhas, ainda com caparro, ocupou o banco de trás do Renault 5 na totalidade. Passámos grande parte da noite, enquanto comiamos peixe em Sesimbra, posta de corvina com arroz branco para espanto do empregado, a cortar na casaca da cultura anglo–saxónica. No íntimo o Rão e eu sabiamos que tudo se esbate e ganha a mesma referência se fizermos este pequeno esforço mental; a Amélia Casa do Vinho não tem o mesmo requinte de uma Teresa Salgueiro, o Departamento da Alegria, os Silvas, o Tomás Cruzeiro, a Sara Caneta de Tinta Permanente, o Daniel Castanho são aquilo que são originalmente... foleiros e inconsequentes.

Há uma vergonha enorme de se ser Português e de lutar por coisas portuguesas. É muito fácil para os responsáveis “culturais” de publicar “enlatados” acerca de figuras que não têm a menor relevância para a nossa cultura e que não merecem o assassinato das árvores necessárias para imprimir semelhantes vulgaridades. Colar e copiar com traduções que parecem tiradas do “google”. Continuamos a papar cultura através de pessoas que não saem detrás das suas secretárias, opinadas e ignorantes.

Pasmo em ver pessoas a fazer doutoramentos para descobrir que um prato de caril muito popular em Inglaterra, o vindaloo que foi também canção da selecção inglesa, não é mais que a importação do nosso vinha d’alhos como eu disse a esse estudante; uma ida para jantar no “Cantinho da Paz” ali na rua da Paz tinha poupado uns tostões ao Estado.

Pasmo em ver gente a fazer cerimónias de chá à inglesa quando fomos nós que levámos tal tradição para esse país. Isto também inclui a descrição de “Danish Pastry”.

Pasmo em ver gente a tentar falar japonês e dizer “domo origato” quando estas palavras não existiam no Japão antes da chegada das naus portuguesas e os nossos sempre educados agradecimentos com um grande “muito obrigado”. O mesmo vai para a “tempura” que não é mais do que os nossos “peixinhos da horta” aliados à palavra tempêro.

E não há orgulho, não há disseminação daquilo que somos e podemos. Qual o país onde um transeunte pode chegar à linha de vista de 50 metros do Coronel Kadaffi sem ser imediatamente assassinado por forças de segurança?

A imprensa e meios “culturais” passam o tempo a digerir indigestões de coisas que já foram digeridas e processadas pela outra extremidade do aparelho digestivo em Londres e Nova Iorque. É um gesto nobre fazer tal reciclagem, só pela reciclagem em si mas tão inútil.
E para finalizar que isto já vai longo lembrem–se... há muito mais beleza em “Roendo uma laranja na falésia” do que em “How soon is now”, que a mais bela canção de amor é “O Prometido é devido”, que ouvir “Do Teatro” do António Pinho Vargas faz vir lágrimas aos olhos, da mais bela voz da Teresa Salgueiro, do melhor piano da Maria João Pires, do melhor poema “Um pouco mais de azul” de Mário de Sá–Carneiro, da melhor prosa “O Memorial do Convento”, os “Maias”, qualquer Aquilino, Lobo Antunes... até o melhor futebol do Cristiano Ronaldo. Leiam o blogue do José Saramago em vez do Woody Allen. E parem de falar inglês!

PS: Um pequeno excerto do Eça que poderia ter sido escrito ontem tirado de "Os Maias", capítulo XVIII, página 571 e seguintes:

Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miúda que Carlos não conhecia.
Por vezes Ega murmurava um olá! acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, com um arzinho tímido e contrafeito, como mal acostumados àquele vasto espaço, a tanta luz, ao seu próprio chique. Carlos pasmava. Que faziam ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes, de calça esguia? Não havia mulheres. Apenas num banco adiante uma criatura adoentada, de lenço e xale, tomava o Sol; e duas matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hóspedes, arejavam um cãozinho felpudo. O que atraía pois ali aquela mocidade pálida? E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos...
— Isto é fantástico, Ega!
Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro — modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha... Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado — exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta — imediatamente o janota estica-o e aguça-o, até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine, em estilo preciso e cinzelado — imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase, até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez, o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução — imediatamente põe, no programa dos exames de primeiras letras, a metafísica, a astronomia, a filologia, a egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas, e outros infinitos terrores. E tudo por aí adiante assim, em todas as classes e profissões, desde o orador até ao fotógrafo, desde o jurisconsulto até ao sportman...

Sempre actual!

Comentários

  1. Ui, que ainda não tinha vindo aqui! :) "párem de falar inglês"?? Bom, isso não sei.. Mas quanto ao Saramago e ao Woody Allen, estamos de acordo!
    Beijinhos

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  2. Lido com mais calma, é verdade, concordo. (engraçado que comecei nos blogues para "treinar" o inglês e mais tarde para conseguir "falar" português)Beijinho outra vez.

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  3. Para comentar tudo(filosofar acerca de...) seria preciso estarmos com uma mesa entre nós, ou apenas um banco de frente para o mar ou relva, e talvez uma grade de cerveja pois a coisa ia durar.
    Ma acerca do falar em não Português, tenho com frequência conversas com os cabo-verdianos sobro os problemas que eles têm em gerir os vários tipos de crioulo das várias ilhas. Porque querem criar uma língua única cm gramática e restantes regras. E eu digo, em Portugal, se juntarmos um açoriano um madeirense e um algarvio, nenhum deles vai entender uma palavra que os outros digam. Os "lisboetas" esses também ficarão a ver navios. No entanto, e isto é que é importante, ninguém sequer se lembra de dizer que algum deles não está falar Portugês. Apenas têm sotaque lá da terra e termos próprios lá deles, diremos. Assunto encerrado. Nem sequer dá motivo de conversa.

    Daqui vem outro assunto interessante. Se qualquer um desses três nossos compatriotas põe acentos em sítios diferentes das pessoas de Lisboa, usam inclusivamente, como os franceses, duas ou mais sílabas acentuadas numa palavra, e até têm palavras que foram inventadas(criadas) ao longo do tempo, então, porque carga de água, todas essas variantes não estão contempladas nessa coisa de "acordo ortográfico"? Se um aluno escrever como eles falam, dá erro, e se escrever como os brasileiros pronunciam, está certo. Esta agora...

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  4. Aqueles maravilhosos programas de rádio, passavam os álbuns completos seguidos. Maravilha. Era a pensar neles, que as editoras prensavam os "duplos" lado um e lado três num disco, e lados dois e quatro no outro disco, para que com dois pratos no estúdio, não fosse preciso perder tempo a virar o disco. Simples. Natural. Óbvio. Delicioso de ouvir.

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  5. É verdade Nando. Como é que se chamava o locutor do RCP e Comercial entre as 11 e a 1 da tarde? qualquer coisa Simões? Grande voz e música que nós tivemos o privilégio de ouvir.

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  6. Acho que dialectos e variantes da língua são comuns em qualquer parte do mundo. Não é raro ver-se alguém ser entrevistado aqui no Reino Unido, por exemplo na Escócia ou do continente indiano a ter legendas em inglês para todos percebermos. E ninguém leva a mal.

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